Decorreu no dia 3 de Setembro, em Cesar, das 9h30m até às 12h 30m, uma Sessão Vicarial (Oliveira de Azeméis / S. João da Madeira) sobre o Sínodo Diocesano que reuniu várias pessoas em torno de um tema tão actual e em que todos somos convidados a dar o nosso contributo. Na mesa que presidiu aos trabalhos, estavam presentes, o Bispo D. Roberto Mariz, o Vigário da Vara e pároco de Oliveira de Azeméis, Sr. Padre José Manuel e o Sr. Padre Eusébio, pároco de Cesar.
Subordinados ao lema, Formar, Reformar e Transformar, surgiu este ponto de partida, do contributo de muitos e traduz a nossa visão e a nossa identidade de Igreja diocesana: uma comunidade acolhedora que congrega a diversidade e se alegra na unidade, Ser Porto. Assumimo-nos como uma grande comunidade cristã de portas abertas, onde o respeito pelo próximo é a base para partirmos juntos em missão e ao encontro da concretização dos sonhos que nos unem. A sinodalidade significa, não o esqueçamos, “caminhar juntos” e descreve um estilo de vida e de organização na Igreja Católica onde todos os baptizados participam, escutam-se mutuamente e partilham a responsabilidade pela missão comum. Na sua etimologia, trata-se de uma palavra que vem do grego syn (junto) e hodos (caminho). No plano teológico e linguístico moderno, a palavra como substantivo (sinodalidade) é um neologismo recente que ganhou forte destaque global com o Papa Francisco, o qual transformou na prática, no grande eixo de renovação da Igreja para o terceiro milénio. Historicamente, a prática e os primeiros esboços teológicos de caminhar e decidir em conjunto (concelho/sínodo) foram amplamente impulsionados já por figuras da Igreja Antiga, como Santo Inácio de Antioquia e São Cipriano de Cartago, que defendiam a consulta mútua entre bispos, clero e o povo.
Depois da abertura desta sessão pelo sr. Padre José Manuel, o sr. Bispo D. Roberto Mariz, abordou, de uma forma sempre apaixonada e cativante, os principais aspectos que se destacam nestes trabalhos do Sínodo Diocesano. D. Roberto Mariz começou por salientar a importância de três palavras: “ Comunhão”, “ Participação” e “ Missão “, tendo referido que ” só há comunhão porque há forte relação com Deus”, sublinhando a importância da acção activa. Um dos aspectos da sinodalidade é a escuta activa. Ouvir não é a mesma coisa que escutar. Ouvir é simplesmente perceber sons, enquanto escutar envolve compreender, interiorizar e responder conscientemente.
Num mundo saturado de ruído e mensagens rápidas, a capacidade de realmente ouvir os outros, torna-se um acto revolucionário e transformador, explica-nos também o teólogo colombiano, Ignacio Madera Vargas, referindo ainda que “ a sinodalidade é muito mais que uma moda passageira; é muito mais que um tema; é uma forma de ser, uma forma de viver”.
Sublinhou ainda D. Roberto Mariz que o Mundo hoje é diferente do Mundo há 20 anos e é importante ter esta noção em ordem ao presente e ao futuro, para assim sentirmos melhor a estratégia para sermos evangelizadores. Referiu também que “ Deus é porto de abrigo para nós, onde encontramos alento e esperança“, sublinhando que “ devemos ter presente a voz e a vontade de Deus, mas tambem ter presentes os sinais dos tempos”, sublinande de forma muito original que “devemos ter sempre presente uma Bíblia e um Jornal “, ou seja, conhecer a palavra de Deus e as necessidades do Mundo.
Incidindo na página seis do livro que serviu de Guia, foram realçadas então as palavras Formar, Reformar e Transformar. A primeira, Formar, nasce da vontade de crescer e capacitar a comunidade para os desafios actuais. A segunda, Reformar, foca-se na melhoria das nossas estruturas, tornando a instituição mais ágil e funcional para a missão. Trata-se de reorganizar para melhor servir, ajustando-nos às circunstâncias do presente. Finalmente, Transformar, ou seja, alcançar uma conversão pastoral autêntica e uma evangelização inspirada no Evangelho.
D. Roberto Mariz, sublinhou ainda que se não houver trabalho nas comunidades não vai haver Sínodo, sendo fundamental darmos as nossas sugestões que não podem cair em saco roto, numa articulaçao importante com os senhores párocos. D. Roberto Mariz referiu ainda que “ temos de olhar para Deus “, ” pois é tudo a partir de Deus “. No princípio, não está a solidão, mas a comunhão. No príncipio da Igreja não está a Igreja. Está Deus. E Deus não é solidão, mas comunhão. E D. Roberto bem salienta que “ Deus é comunhão “, sublinhanto também que existe essa comunhão dentro das diferenças. D. Roberto Mariz acentua também, de forma impactante e intensa que “ Deus congrega sem uniformizar e une sem apagar as diferenças “. Sublinha ainda que as diferenças não nos devem colocar de costas voltadas, mas que sejamos capazes de caminhar juntos, sublinhando que “ o Espírito continua a conduzir o povo de Deus “.
Já o Papa Francisco, tinha insistido que a “sinodalidade é o caminho que a Igreja deve seguir no século XXI”. Não é uma estrutura de poder hierárquica, mas sim um local de encontro onde todos, do mais humilde ao mais alto líder, desempenham um papel importante na construção do Reino de Deus.
A conversão pastoral, insistentemente proposta pelo Papa Francisco e retomada pelo Concílio Vaticano II, não é, apenas, como tinha pedido o Papa João XXIII no Concílio, uma simples tradução em linguagem corrente dos tesouros da tradição cristã, mas o recuperar de toda a tradição, no diálogo evangelizador da comunidade crente com o Mundo.
“A sinodalidade não é meramente uma opção a ser recuperada, mas, de facto, é o único modo autêntico de ser Igreja.” Tal opinião é do frei franciscano estaduniense Daniel P. Horan, professor assistente de Teologia Sistemática e Espiritualidade no Catholic Theological Union, em Chicago e de facto assim é!
Yves Congar, OP, um dos maiores teólogos do século XX (teve Jacques Maritain e Reginald Garrigou-Lagrange como professores) e uma influência importante em quase todos os aspectos da Igreja durante e após o Concílio Vaticano II, escreveu que “a tradição sempre tenta responder aos problemas actuais; ela cresce e se renova. Nada é mais tolo do que pensar que tudo foi dito no passado”. E por isso é que a sinolalidade é tão importante nos dias de hoje!
D. Roberto Mariz, sublinhou ainda que na comunidade cristã, todos os baptizados são enriquecidos com dons para partilhar, cada um segundo a sua vocação e a sua condição de vida. D. Roberto Mariz, sublinhou ainda que “ cada um, como bom administrador dos bens de Deus, ponha à disposição dos outros a graça que dele recebeu ”. Lembrou ainda Bento XVI que referiu que “os leigos não devem ser colaboradores da hierarquia, mas sim corresponsáveis pelo ser e agir da Igreja” Foi ainda referida, a importância dos diversos lugares, como formas de participação de acordo com a diversidade de carismas que a cada um, importa descobrir, no sentido de evangelizar os ambientes. Referiu D. Roberto Mariz que “o Discernimento é contínuo e constante, aquilo que o Espírito nos fala, para a nossa acção pastoral”. A Sinodalidade, além disso,é um verdadeiro estilo de vida que nos convida a caminhar juntos, a ouvir-nos e a discernir para agir.
Não esqueçamos que em todos os aspectos da existência, podemos continuar a crescer e dar algo mais a Deus, mesmo naqueles aspectos em que experimentamos as dificuldades mais fortes. Referiu ainda D. Roberto Mariz que “ o Discernimento requer liberdade interior, humildade, oração, confiança reciproca, abertura à novidade e abandono à vontade de Deus”. Referiu ainda, D. Roberto Mariz, curta e poderosa frase: “ Escutar e escutarmo-nos “. Extraordinária reflexão!
Como nos disse um dia o psicólogo Carl Jung” hoje, é mais fácio o homem ir à lua, do que mergulhar no seu interior ”. Como isto é infelizmente uma verdade que com estas reflexões sinodais, somos convidados a inverter!
Referiu também D. Roberto Mariz que “ Deus fala, Deus não é mudo, Deus fala e continua a falar”, referindo ainda que devemos ter uma capacidade sincera de escuta, referindo pois que “escutar é criar espaço para o Espírito “, sublinhando que “ o Espírito fala entre nós! ”
Lembrando novamente Yves Congar, quando lhe perguntaram se se considerava um vanguardista, este respondeu:
“Absolutamente não. Espero ser mente aberta e reconhecer os problemas de nosso tempo. Mas sou um homem de tradição. Isso não significa que eu seja conservador. A tradição, como eu a entendo, é como a própria Igreja: vem do passado, mas olha para o futuro e prepara o terreno para uma nova escatologia.” E é isto mesmo que se procura, aprofundando a importância da sinodalidade.
Relembre-se que Yves Congar, não era apenas um grande estudioso, mas um homem da Igreja, profundamente dedicado à renovação e unidade do povo de Deus.
“A sinodalidade não é apenas um estilo que se adopta, mas a forma própria da Igreja de ser Igreja: uma Igreja que escuta, que discerne, que compartilha, que ama. Uma Igreja que, ao viver sinodalmente, manifesta aquilo que realmente é: ícone da Trindade e sacramento da esperança”, escreve José F. Castillo Tapia, padre jesuíta actuante na Amazónia brasileira junto aos povos indígenas.
A recente alocução do Papa Leão XIV ao Conselho Ordinário do Sínodo (26-06-2025) voltou a sublinhar que “a sinodalidade é um estilo, uma atitude que nos ajuda a ser Igreja, promovendo experiências autênticas de participação e comunhão”.
Na mesma linha, Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) afirmou que, por sua natureza, “a Igreja é o concílio contínuo de Deus no mundo” (Teologia da Liturgia, 2005, p. 22.), ou seja, uma assembleia permanente sob o olhar de Deus. Essa imagem de Concílio permanente sublinha que a autoridade eclesial deve ser pensada de maneira conciliar e participativa, não como um poder isolado. Contudo, Ratzinger também oferece uma nuance importante: a Igreja celebra concílios, mas é comunhão. Como ele escreve: “A Igreja não existe antes de tudo para deliberar, mas para viver a Palavra que lhe foi dada”.
O próprio Papa Paulo VI sublinhou que a renovação pós-conciliar exigia uma Igreja que integrasse clero e laicado, reconhecendo a acção do Espírito Santo em todos os seus membros. A comunhão eclesial, segundo o Concílio, encontra sua fonte e o seu cume na Eucaristia. A cada celebração, “a unidade dos fiéis, que formam um só corpo em Cristo, se realiza e se manifesta pelo sacramento do pão eucarístico”. Portanto, a sinodalidade – como caminho eucarístico – é uma expressão da própria essência da Igreja.
O Concílio Vaticano II já prefigurava o caminho sinodal ao destacar a dignidade e a missão comum de todos os baptizados. A Constituição Lumen Gentium ensinou também que todo o Povo de Deus participa dos ofícios de Cristo – sacerdote, profeta e rei -, implicando uma corresponsabilidade real na missão eclesial. Essa ênfase conciliar, significou uma mudança hermenêutica profunda: passou-se a priorizar a comunhão do conjunto (“Igreja como Povo de Deus”) em relação à visão meramente piramidal e hierárquica, sinal evidente da sinodalidade presente.
Também Henri de Lubac, outro gigante da eclesiologia do século XX, sublinhou que a Igreja é, em sua essência, um mistério de comunhão que se torna visível no corpo sacramental. A Eucaristia, para De Lubac, é o lugar por excelência onde se realiza a unidade do Povo de Deus. Essa dimensão litúrgica e pneumatológica da comunhão está no cerne da experiência sinodal: os fiéis não caminham juntos apenas por vontade comum, mas porque são unidos pelo Corpo de Cristo e guiados pelo Espírito.
Hans Urs von Balthasar, por fim, via a Trindade como o modelo de toda comunhão. Em sua teologia, a Igreja deve refletir a beleza e a doação recíproca do amor trinitário. Para ele, a sinodalidade seria a expressão visível da lógica trinitária dentro da vida eclesial: “Cada pessoa da Trindade vive para as outras, em um movimento eterno de doação… A Igreja, como imagem da Trindade, só será fiel quando cada membro viver também em função dos outros, em amor e serviço”.
Essa visão permite compreender a sinodalidade não como estrutura funcional, mas como expressão do ser eclesial mais profundo, uma participação histórica no mistério eterno da comunhão divina.
A sinodalidade, portanto, não é um adorno pastoral, nem uma ferramenta administrativa. É a forma eclesial mediante a qual a comunhão da Igreja se manifesta e se realiza na história. O Povo de Deus, com seus diversos carismas e ministérios, vive sua missão no discernimento comunitário e no exercício corresponsável da escuta do Espírito. Isso significa que todo baptizado é sujeito activo da missão e da vida da Igreja, não por delegação, mas por vocação e graça.
O Bispo D. Roberto Mariz, indicou em seguida, os passos que deviam nortear os trabalhos dos 30 grupos que foram definidos, tendo, findos os trabalhos – análise dos Actos dos Apóstolos, 15, 1-6, – , cada um dos grupo vindo partilhar a proposta principal a ser reflectida nesta reflexão sinodal de que destacam os seguintes:
- É preciso caminhar juntos, todos com o mesmo objectivo (exemplo da junta de bois). • Diálogo entre gerações. Definir o que é bom e mau. • Maior coerência e abertura da Igreja, ser mais acolhedora. Fomentar o diálogo. • Sair da nossa zona de conforto. Não ter medo. Abrir os nossos corações aos outros. Eliminar preconceitos.
- Maior união e uniformidade entre os párocos, regras e exigências. • Maior intimidade com Deus. Sermos testemunhas de Cristo, no sentido que vivemos em comunhão. • Incentivo à Oração. Equipas de acolhimento e de ajuda inter- vicarial.
- Igreja em saída, rumo às periferias. • Acolher todas as pessoas, sem restrições nem preconceitos. • O Moderador deve ser o Pároco. • Combater a indiferença. Pormo-nos no lugar do Outro. Perdoar 70 X 7. • Oração em conjunto. Reunião dos pais, para passar mensagem aos filhos. • Aceitar novas comunidades de imigrantes. • Amor ao próximo. • Mais acolhimento a idosos e a doentes. • Palavra de Deus no centro da nossa vida. • Maior dinâmica na Catequese e mais envolvimento dos pais. • Abertos a mais diálogo. • Maior atenção ao mundo moderno. Aproveitar a onda para evangelizar. Fomentar encontros que mudam a vida • Comprometimento com a Igreja de Jesus. • Acolhimento e integração dos mais jovens na vida paroquial. • Escutar o silêncio, ouvir os outros • Diálogo inter-religioso. Trazer Deus para o centro destes diálogos. • Não devemos caminhar sozinhos, nem decidir sozinhos. Coração aberto ao Outro. • Aprofundar vertente de horizontalidade dos leigos. Papel da mulher. • A renovação começa por cada um de nós. Sermos portadores da Boa-Nova. • Oração, disponibilidade e caridade.
Caminhar sinodalmente é, portanto, viver desde já a comunhão definitiva, encarnada na realidade da Igreja e alimentada pela Eucaristia. A sinodalidade não é uma invenção contemporânea, nem um “recurso participativo” moderno. É o próprio mistério da Igreja, que caminha entre os povos, guiada pela luz do Espírito, como sinal e instrumento da comunhão trinitária. O contributo de todos estes grupos é um testemunho disso mesmo.
(inf: Diácono Djalma Marques)
